MemóriasMemórias do Bixiga

Você sabia que o maior parceiro de Carlos Gardel nasceu no Bixiga?

Texto: Júlio Moreno

Memórias do Bixiga: Você sabia que o maior parceiro de Carlos Gardel nasceu no Bixiga?
Carlos Gardel e Alfredo Le Pera

É bem conhecida a ligação do Bixiga com a música, graças a vários talentos nascidos no bairro. O que pouca gente sabe, porém, é que Alfredo Le Pera, o maior parceiro de Carlos Gardel, o “Rei do Tango”, também era bixiguento. Sim, isso mesmo! Ele nasceu às 22h30 do dia 7 de junho de 1900, na Rua Major Diogo, nº 122. No endereço, hoje, encontra-se o prédio do Sindicato dos Padeiros.

Você se lembra daquela notável cena do filme Perfume de Mulher (1992), em que Al Pacino, interpretando um ex-tenente-coronel cego, dança o tango Por una cabeza com Gabriella Anwar? Pois bem, a letra dessa música, imortalizada na voz de Carlos Gardel, foi escrita por Le Pera.

Ao todo, ele escreveu mais de 30 poemas para o “Rei do Tango”, que cuidava da música. Entre eles, sucessos como El día que me quieras, Silencio, Cuesta abajo e Volver, este último um clássico absoluto do gênero. Gardel, ao se inspirar para compor um tango, escolhia um tema e um sentimento, começava a cantarolar baixinho até encontrar a melodia apropriada. “Chamo então meu amigo e companheiro Alfredo Le Pera e, com a ajuda da pianista, imediatamente componho a melodia definitiva e a letra”, contava.

Memórias do Bixiga: Você sabia que o maior parceiro de Carlos Gardel nasceu no Bixiga?
Alfredo Le Pera, em foto autografada em1929, dada a conhecimento público pela família há poucos meses

Alfredo era filho de imigrantes italianos: Alfonso Le Pera, calabrês, e Maria Sorrentino Moreno, napolitana. Dois anos após seu nascimento, a família mudou-se para Buenos Aires, então uma capital em plena efervescência, onde Le Pera cresceria e construiria sua trajetória artística.

Dizem seus admiradores que ele introduziu ternura e atemporalidade ao tango. Por una cabeza, um dos mais famosos da dupla, narra a história de um apostador compulsivo em corridas de cavalo, que compara o vício às mulheres, por quem sente atração irresistível. Puro retrato de Gardel! Já Mi Buenos Aires querido é um hino que exalta a beleza, a cultura e a emoção da cidade.

Quando a família Le Pera chegou a Buenos Aires, a capital argentina já possuía grande encanto: sua população era de 661 mil habitantes, quase três vezes a de São Paulo em 1900, que contava com 240 mil. No Bixiga viviam então cerca de 10 mil pessoas. A cidade de São Paulo ainda era iluminada por lampiões a gás, e a casa dos Le Pera ficava vizinha ao recém-inaugurado “Grupo Escolar da Bella Vista” (hoje E.E. Maria Augusta Saraiva). Alfredo estudou piano quando criança e, atendendo ao desejo dos pais, ingressou em Medicina. Mas largou o curso no quarto ano para seguir sua verdadeira paixão: a escrita, já revelada na adolescência por meio das redações escolares.

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Carlos Gardel, Mona Maris e Alfredo Le Pera em cena do filme “Cuesta Abajo” (1934)

Um de seus professores, impressionado com a clareza, a elegância e a maturidade de sua escrita, percebeu ali um talento literário que não poderia ficar restrito à sala de aula. Foi ele quem incentivou Le Pera a seguir pela literatura e chegou a apresentá-lo a círculos culturais e intelectuais da cidade. Esse contato precoce abriu portas para que Alfredo se aproximasse do jornalismo e do teatro, área em que atuou tanto como crítico quanto como autor de mais de uma dezena de peças.

Apesar de cultivar certo gosto pela boemia noturna portenha, Alfredo era discreto e introspectivo, em contraste com Carlos Gardel, que era galanteador, bonito, sorridente e ditava moda com seu estilo elegante, chapéu de feltro e lenço no bolso do paletó. Ainda assim, Le Pera teve romances intensos com bailarinas, sendo o primeiro com Aída Martinez — relação que rompeu um namoro com uma colega da Medicina, causando escândalo. Anos depois, levou a noiva adoecida à Suíça em busca de tratamento. Apesar dos esforços médicos, ela faleceu após seis meses. Muitos acreditam que a dor dessa perda inspirou Le Pera a escrever El día que me quieras.

A primeira letra de tango escrita por ele foi Carillón de la Merced, em 1931, em parceria com o renomado pianista argentino Enrique Santos Discépolo. A inspiração veio do som dos carrilhões da Basílica La Merced, em Santiago, durante uma viagem ao Chile com a companhia de revistas de Mario Denard, da qual era secretário.

Memórias do Bixiga: Você sabia que o maior parceiro de Carlos Gardel nasceu no Bixiga?
Descerramento de Placa Comemorativa no Sindicato dos Padeiros. Ao centro, o presidente Chiquinho Pereira

Sua parceria com Carlos Gardel nasceu em um café de Paris, em um encontro marcado por um amigo em comum. “Carlito” buscava um roteirista para seus filmes, enquanto Le Pera trabalhava na capital francesa como tradutor para o espanhol das legendas de filmes mudos e agenciador de películas para o mercado argentino. Ao se cumprimentarem, Gardel reconheceu Alfredo dos cafés de Buenos Aires. Apesar de já terem discutido no passado por causa de uma crítica, o cantor foi diplomático e não tocou no assunto. A parceria rendeu frutos: entre 1932 e 1935, os dois trabalharam em sete filmes, todos roteirizados pelo filho do Bixiga.

O primeiro deles foi Cuesta abajo, filmado em 1934 em Long Island, no qual Alfredo chegou a participar em uma ponta: simulava uma discussão com Gardel em um cabaré, enquanto o cantor dançava com a atriz Mona Maris.

As músicas dos filmes tornaram-se mais famosas do que as próprias películas. El día que me quieras integrou o filme homônimo de 1935, que também incluía Volver. Já Por una cabeza foi composta para o filme Tango Bar. Ambos foram rodados em Nova York pela Paramount e estrearam na mesma cidade, de forma póstuma, em julho e agosto, pouco tempo após a morte trágica dos parceiros em um acidente aéreo no aeroporto de Medellín, Colômbia, em 24 de junho de 1935. A tragédia vitimou 17 pessoas e deixou apenas três sobreviventes.

Grafite inspirado na música Por uma Cabeza, feito por Sow, jovem de Cidades Tiradentes

Em 2025, ano em que se completam 125 anos do nascimento de Alfredo Le Pera, o projeto cultural LePeraPoetadeGardel, criado na Argentina, celebra sua memória com homenagens em diversas partes do mundo. No Bixiga, uma delas ocorreu em 7 de junho passado, dia de seu natalício, na sede do Sindicato dos Padeiros, justamente no endereço de sua “casa natal”. O presidente da entidade, Chiquinho Pereira, apoiou de imediato a ideia ao conhecer a história do paulistano sensível, discreto e apaixonado, que deu alma e poesia ao tango.

Houve descerramento de placa comemorativa, palestras, tango bailado e até cantado à capela. O auditório do Sindicato foi decorado com grafites inspirados em letras de Le Pera, produzidos por jovens frequentadores das Fábricas de Cultura 4.0 da periferia. Aliás, colegas deles chegaram a criar até um funk de Por una cabeza.

O sucesso foi tanto que a Academia Nacional del Tango convidou os grafiteiros para exporem em novembro seus trabalhos em sua sede em Buenos Aires, localizada no andar superior do centenário Café Tortoni, um dos pontos turísticos mais icônicos e disputados da capital portenha.

(*) Júlio Moreno, jornalista, é autor do livro “Memórias de Armandinho do Bixiga” (1996), cuja versão Instagram (@armandinhodobixiga)  foi lançada no início deste ano.

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