Memórias: As cadeiras na calçada do Bixiga
Texto de Armando Fragnan
Antigo reduto da colônia italiana desde o início do século passado, hoje transformado em bairro boêmio, acompanhei a todas as modificações ocorridas no Bixiga. Assisti à desapropriação na década de 60 que desfigurou grande parte da região.
Nascido e criado na rua João Passalacqua, quase nada lembra o antigo bairro. Os italianos, alfaiates, sapateiros, barbeiros e marceneiros desapareceram do Bixiga, com exceção dos padeiros que conseguiram resistir ao tempo. Naquela época lembro-me que segunda-feira era feriado para tais profissionais.
Ao domingos era infalível a missa na capela do Colégio Passalacqua. A seguir, os alunos rumavam para a segunda missa, na igreja Nossa Senhora de Achiropita. Nos fins de semana a moda era frequentar o Cine Rex, que exibia dois filmes aos moradores do bairro. Na rua Rui Barbosa os vizinhos retiravam as cadeiras de suas casas, levando-as às calçadas onde sentavam enfileirados lembrando os costumes calabreses, sicilianos e napolitanos.
Havia as partidas de futebol de salão que se realizavam na quadra do Boca Júnior da Bela Vista, na Rua Santo Antônio.
Nas enfermidades da família era obrigatória a visita domiciliar do Doutor Mazza que, religiosamente, acompanhava a evolução do paciente em casa, constituindo o médico da família, figura quase extinta nos dias atuais.
Pelas ruas do bairro, por falta de lugar apropriado, aconteciam os ensaios da Escola de Samba Vai-Vai, na época Cordão Vai-Vai.
Os primeiros namoros e, posteriormente, os bailinhos da rua Major Diogo, na época da Jovem Guarda, existem hoje apenas em nossas lembranças.
Do antigo Bixiga, que originou a este novo Bixiga, resta apenas a saudade de quem teve o privilégio de vivê-lo.
Imagens geradas por Inteligência Artificial.
